Planejamento Urbano

Cidade criativa

Lideranças debatem sobre a Uberlândia que desejam para 2100
Ana Elizabeth Diniz
Edição 48 - 16/10/2015

Fred Magno/Agência i7A ideia é criar processos para o desenvolvimento das cidades. Para isso, todos foram convocados, sociedade civil organizada, instituições e órgãos que atuam diretamente em ações para o benefício da comunidade. Todos se encontraram na Oficina Cidade Empreendedora, Cidade Criativa, parte do cronograma de atividades do Fórum Uberlândia 2100, parceria entre o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (Sinduscon-TAP) e o Grupo Algar. “O Fórum Uberlândia 2100 é um projeto nascido para se pensar qual o futuro da cidade que queremos para os próximos 85 anos. Essa oficina traz o viés da criatividade e do empreendedorismo. Precisamos pensar no desenvolvimento econômico e, a partir disso, no social e humano. Conforme a configuração que damos à cidade, vamos gerar qualidade de vida para nossos cidadãos”, diz Panayotes Tsatsakis, presidente do Sinduscon-TAP. 

Ele chamou a atenção para o fato de Uberlândia ter característica muito peculiar: é uma cidade onde vivem muitas pessoas vindas de fora. “Isso traz multiplicidade de ideias e capacidades que podemos aproveitar para fazer um município melhor. A cidade criativa é importante porque o ser humano precisa disso para viver bem. O indivíduo começa a perceber que o recurso financeiro não é mais o foco principal, mas o viver bem e ter boa saúde mental. A importância da qualidade de vida começa, graças a Deus, a suplantar a parte financeira.” A consultora da ONU, Ana Carla Fonseca, integrante do grupo de peritos em políticas públicas da Unesco, defendeu a ideia de economia criativa. “Essa é a bola da vez em um momento de globalização e competição acirrada, pois esse conceito tem ativos econômicos muito fortes. O dinheiro circula no mundo com mais facilidade, a tecnologia também. Gente significa talento criativo, capacidade individual de mudar o contexto no qual está inserido. Arte e cultura, ciência e tecnologia podem transformar a economia.”

O talento criativo oferece algo novo e é percebido como de valor, porque empreende, arrisca e gera um resultado que ninguém conhece. “Temos possibilidades infinitas de reempacotar nossas tradições. Pegar histórias de Uberlândia, resgatar memórias e criar algo que sai do mesmo, do tradicional. Sair do igual e compartilhar algo novo. Onde estão as nossas histórias que ninguém conhece? Não as compartilhamos, mas deveríamos ser cúmplices nisso. Como transpor para nossas histórias valores emocionais e criarmos uma marca de Uberlândia feita por todos? Atividades econômicas baseadas no talento criativo geram produtos, serviços e propostas diferenciadas. É preciso reconhecer o valor econômico do talento criativo para criar receitas e diferencial”, argumenta a consultora. Para ela, as tecnologias digitais catalisam uma nova fase porque trazem impactos pela globalização e concorrência maior e premência para encontrar diferenciais de mercado. “Uma cidade é muito mais do que economia. É um lugar onde absorvemos informações que nos impactam. É preciosa a simbiose que acontece entre economia e cidade”, avalia a consultora.

Segundo Luísa Vidigal, analista técnica do Sebrae de Uberlândia, o fórum traz a reflexão sobre onde queremos passar nossa vida, criar nossos filhos, viver, consumir e interagir. “A ideia é que a cidade nos proporcione isso. Quando falamos de cidade empreendedora, pensamos em prosperidade, empreendedorismo, um lugar ideal para os moradores desenvolverem seus negócios em um ambiente criativo e inovador.” Já Alejandro Castañé, especialista em inteligência coletiva, tendo lecionado nos Estados Unidos, Portugal, México e Bolívia, exibiu propostas criativas para o desenvolvimento. “As cidades têm 5 desafios, basicamente: econômico, cultural, social, ecológico e de resiliência, a capacidade de se adaptar ao todo. Nesse processo, cidadãos inteligentes podem fazer diferença. A tecnologia é bem-vinda, mas temos que investir no talento das pessoas, em sua experiência cultural. As cidades têm que olhar para si mesmas, dialogando com a cultura, inovação e as tradições, dentro de um processo que contemple seus cidadãos e todos os atores da sociedade. Na inteligência coletiva tem que haver diversidade para não legitimar o mesmo.”

Alejandro considera que os problemas das cidades são muito complexos e exigem profissionais de tecnologia, economia, desenvolvimento urbano e humano. “Temos que educar nossos jovens para os novos tempos. Nossas ações não devem focar apenas nas questões econômicas, financeiras e desenvolvimento. Temos que olhar para nosso ecossistema, nossos recursos humanos, tecnológicos e emocionais se quisermos ter uma inteligência social”, diz. O especialista critica a dependência do cidadão às políticas públicas. “Para as pessoas, tudo que ocorre é culpa do governo, mas ele não dá emprego. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, o governo dá ferramentas para que seus cidadãos tenham competitividade. Paris está investindo 2 milhões de euros em 41 espaços para a construção de jardins verticais. Temos que rever o que fazemos com a cidade e qual é a nossa responsabilidade, como cidadão, empresa, político e academia. É preciso trabalhar de forma conjunta, porque as cidades são um ente vivo, dinâmico.” 

Para Alejandro, é mais que possível, é necessário, conciliar tradições com inovação. “É difícil encontrar as tradições, que estão meio que perdidas. No Brasil, está tudo encapsulado. As cidades devem respeitar e reinventar sua cultura e suas tradições. Isso é inovação. A inteligência coletiva permite fazer muito mais coisas pela cidade. O caminho é trabalhar com a economia criativa e compartilhamento de conteúdo em projetos colaborativos empresariais.”




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